segunda-feira, 1 de junho de 2009

Ser Escravo no Brasil: O Cotidiano (II)

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...continuação do post anterior
(Última parte)
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"O escravo adquire uma certa identidade social e vê que lhe são dados certos papéis sociais e até mesmo certa impor­tância social, um peso específico face ao homem livre, resul­tado da garantia protetora da família do senhor..... Mas essa identidade nova é de fato a identidade social da família do senhor" (1).

Porém esta mesma identidade não pode ser traduzida como um fator para obediência e fidelidade totais do escravo para com o senhor. Esta seria apenas uma maneira sutil e eficaz de resistência do "negro face a uma sociedade que pretende des­pojá-lo de toda herança moral e cultural" (2) ("obediência" bem parecida com a dos incas e astecas contra os espanhóis, observada por Las Casas).

Na realidade a visão quase idílica que Kátia Mattoso critica em Gilberto Freire com relação ao paternalismo do senhor e a obediência do escravo, em suma, ao equilíbrio existente no engenho seria questioná­vel. "Esse equilíbrio era, freqüentemente, precário e um pe­queno nada poderia rompê-lo. Acontecem então os suicídios, as fugas, as revoltas individuais ou coletivas" (3). Ao senhor restaria somente a repressão.

Trabalhando o cotidiano do escravo ela consegue entender o envolvimento da Igreja como uma das mentoras ideológicas da sua obediência. As palavras dos padres dirigidas aos negros nos sermões são tão cheias da necessidade de resignação e submissão que somadas a sua necessidade de identidade e a repressão do senhor torna-se o elemento sacralizador da obe­diência e da fidelidade.

"Para o escravo, a felicidade dos céus somente pode ser alcançada, talvez, após uma vida de privações e punições" (4).

Mas é também analisando o seu cotidiano que vê-se a luta do escravos contra sua aculturação, pois criam modos sutis de preservar seus rituais e crenças. Brincadeiras e festas que nada representam para os senhores são na verdade mantenedoras dos rituais das culturas africanas.

Kátia também analisa psicologicamente o meio vivente do Brasil Colônia. E é esta avaliação que nos traz a tona um lado não muito estudado pela história política ou econômica, positivista ou marxista. As relações de poder são avaliadas ( na mesma importância que propôs Michel Foulcault (5) : "nada mu­dará a sociedade se os mecanismos de poder que funcionam fora, abaixo e ao lado dos aparelhos de Estado a um nível muito mais elementar, cotidiano, não forem modificados") dentro do mundo colonial escravista, da posição do senhor e dos escravos.

Para a autora as relações sociais na colônia, nos séculos XVII, XVIII e XIX, são bem mais complexas "do que a imagem simplificadora refletida pela clássica oposição en­tre homens livres dominantes e homens pretos dominados" (6), pois para ela os níveis de hierarquia social são tão visíveis na classe "dominada" quanto na "dominante". A comunidade ne­gra, por exemplo, dividi-se em vários grupos, as vezes hostis uns aos outros.

Isto é demonstrado tanto no campo quanto na cidade, onde os negros se encontram a noite. Cada etnia, ou separados em grupos mulatos e negros, se encontra em seus respectivo "canto". Esta divisão seria fortalecida pela administração pública, pois esta última temia a criação de uma frente comum criada contra a sociedade dominante. Aliás, segundo a própria Kátia, esta divisão era instigada desde a infância do negro.

Desde os 7 ou 8 anos, idade em que começam a trabalhar, as crianças devem obediência não só ao senhor e seus familiares, mas também a outros negros (freqüentemente de outra etnia africana, ou mestiço). Isto provoca diversas divisões : entre os crioulos (nascidos no Brasil) e os oriundos da África, entre as etnias, entre mestiços e negros, etc.

As avaliações cotidianas, antes de serem uma "rejeição do racional" (7), são análises fragmentadas da história, que ser­virão para preencher os vazios deixados pelas histó­rias política e econômica. Serve-nos para que não incorramos no risco de análises macroscópicas sem avaliarmos o que acontece no dia-a-dia da vida dos indivíduos. Conheçamos seus medos, suas angústias, seus fracassos particulares.

Unindo a psicologia de Wilhelm Reich, a filosofia de Sartre, a antropologia de Pierre Clastres, entre outros, ao estudo da História, os his­toriadores da Nova História ( e entre estes poderíamos inserir Katia Mattoso) não estariam desejando atomizá-la para torná-la irrealizável, mas tentando absorver o conhecimento das partes para o entendimento do todo.

1 - MATTOSO, Katia. Ser Escravo no Brasil. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1990. p. 103

2 - MATTOSO, op. cit., p. 117

3 - MATTOSO, op. cit., p. 119

4 - MATTOSO, op. cit., p. 114

5 - FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1992. p. 221

6 - MATTOSO, op. cit., p. 123

7 - DOSSE, François. A História em Migalhas: Dos Annales a Nova História. Campinas: Edt. Unicamp, 1992. p. 187

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